A Trajetória Profissional
De Caixeiro-Viajante a grande comerciante
A história de sucesso de Carlos Barth Júnior não começou em escritórios luxuosos, mas sim na poeira das estradas do interior gaúcho e no balcão de estabelecimentos que formavam a espinha dorsal do comércio teuto-brasileiro no início do século XX. Nascido em Rio Pardinho em 1887, ele ingressou na dura rotina do trabalho logo após terminar o colégio.
O seu aprendizado comercial ocorreu no centro de uma engrenagem econômica fascinante que interligava as colônias do interior à capital, dominada na época por gigantes da importação.
O início duro e a escola comercial (1902 - 1905)
Aos 15 anos, o jovem Carlos começou a trabalhar como auxiliar na casa de colônia do agente Bernardo Fischer, em Santa Cruz do Sul. Este primeiro emprego foi uma verdadeira prova de resistência: durante os primeiros seis meses de trabalho, ele não recebeu absolutamente nenhuma remuneração financeira, ganhando apenas a experiência prática do comércio. Após esse período de provação, seu esforço foi recompensado com um modesto ordenado de 10$000 (dez mil-réis) mensais, acrescido do direito a "cama e bóia".
Trabalhar com Bernardo Fischer significava, na prática, estar imerso na poderosa rede de distribuição das Casas Bromberg. Fischer não era um simples lojista, mas sim um agente técnico-comercial especializado, responsável por negociar, montar e dar assistência mecânica a maquinários pesados (como debulhadeiras e motores a vapor) importados pela Bromberg e vendidos aos colonos da região. Foi neste ambiente de ferragens, demonstrações práticas e negociações de crédito que CBJ forjou sua base comercial.
O Caixeiro-Viajante e o burro Bismark (1905 - 1912)
Aos 18 anos de idade, já munido de uma base sólida sobre o funcionamento do comércio, Carlos tomou a decisão que mudaria seu destino: mudar-se para Porto Alegre. Na capital, com o apoio de seu irmão Adolfo, ele ingressou na firma H. D. Maier.
A H.D. Maier era uma das principais peças do comércio teuto-gaúcho, atuando sob regime de comissão com as Casas Bromberg. Contudo, o texto histórico de Alfredo Ludwig revela que, naquele momento, a empresa também era considerada "o maior empório de fazendas" (tecidos).
CBJ foi contratado com um salário de 100$000 (cem mil-réis) "secos" (sem cama e comida inclusas), mas sua alta concentração no trabalho e senso de responsabilidade rapidamente cativaram seus patrões. Ele ascendeu na hierarquia da empresa até conquistar o exaustivo, porém invejável, posto de caixeiro-viajante, auxiliado pelo inseparável burro Bismark. ( Ver história abaixo)
O sucesso de Carlos nas vendas pelas estradas foi formidável. O seu ordenado, que iniciou em 100 mil-réis, saltou vertiginosamente ao longo dos anos para 150, 180, 200 e, finalmente, 250 mil-réis.
O "Sonho Dourado" e a fundação de A Brasileira (1912 - 1915)
Após sete anos de viagens, vivendo com economia e disciplina, Carlos acumulou um capital próprio de mil e trezentos cruzeiros (mil e trezentos mil-réis, na moeda da época). Aos 25 anos, em 1912, ele finalmente pediu demissão para realizar o seu "sonho dourado": casar-se com Dona Elvira e abrir a sua própria casa comercial.
Esta história é contada no bloco A Brasileira.
Histórias
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Casas Bromberg
A Importância Histórica das Casas Bromberg
Para entender a juventude de Carlos Barth Júnior, é preciso conhecer a força das Casas Bromberg. Fundada em 1863 pelo jovem empresário hamburguês Martin Bromberg em Porto Alegre, a empresa tornou-se a maior importadora de bens de capital e maquinário europeu da América do Sul. A Bromberg foi a grande responsável por impulsionar a industrialização e a mecanização agrícola no Rio Grande do Sul. Como a matriz ficava na capital e enfrentava barreiras geográficas para vender aos pequenos agricultores, a Bromberg criou um "sistema tripartite": usava distribuidores atacadistas coloniais (como a firma H.D. Maier) para mercadorias gerais, e agentes técnicos (como Bernardo Fischer) para maquinário complexo. Foi fazendo parte desta gigante rede interligada que o jovem Carlos aprendeu os segredos do grande comércio. -

As Estradas e o Famoso Burrico Bismark
O viajante de hoje utiliza os meios mais confortáveis de locomoção, desde a primeira classe da aviação até veículos modernos. Mas naquela época, o transporte para fazer "a praça" exigia sincronizar forças com carroças e animais de carga, e a vida de caixeiro-viajante era sinônimo de sacrifício. Sediado em Porto Alegre, Carlos passava dias desbravando o interior do estado para abastecer a clientela colonial com tecidos e mercadorias. Acompanhado de mulas carregadas de fardos, Carlos enfrentou estradas precárias, temporais e o sol abrasador durante sete anos.
Sua grande companhia de estrada nessas longas jornadas era o seu fiel burrico, carinhosamente chamado de Bismark ( A foto rregistra Carlos montado em seu cavalo, em Santa Maria do Herval, aos 19 anos).
Bismark não era um animal qualquer; tornou-se famoso e conhecedor pleno não só da zona de viagem, como também das próprias paradas e dos clientes. A sua intuição para os negócios era tão certeira que virou lenda entre os comerciantes. Costumava-se dizer na época: "Se o Bismark não para, vocês também não. Ele não para diante de freguês que não é bom ou no mínimo é caloteiro!"
Por essas qualidades, o fiel companheiro de Carlos Barth Júnior definitivamente não merecia o título de burro.