Os Barth
A história dos Barth que chegou até nossa família começa na região de Koblenz, na Alemanha, e atravessa Rio Pardinho, Santa Cruz do Sul e Porto Alegre. É uma trajetória de imigração, trabalho, adaptação e continuidade entre gerações.
Segundo as memórias escritas por Léa Barth Gerbase, Peter Barth chegou ao Brasil em 1850, aos 28 anos, acompanhado da esposa, Anna Bendix Barth, e do filho Karl, então com quatro anos de idade.
“Deixaram a Alemanha e a localidade de Koblenz com a esperança de recomeçar no Brasil, terra para plantar e progredir.”
— Léa Barth Gerbase
A América, porém, não ofereceu imediatamente a vida promissora que havia sido apresentada aos emigrantes. Depois da chegada, a família foi encaminhada para a região de Rio Pardinho, no município de Santa Cruz. Foram anos difíceis, pois muitas das promessas feitas pelo governo aos imigrantes não se cumpriram. Foi preciso enfrentar as circunstâncias com coragem e construir quase tudo a partir do início.
Peter Barth dedicou-se à agricultura. Criava porcos, mantinha algum gado, principalmente leiteiro, e estabeleceu um pequeno armazém. Seu filho Karl, ainda moço, cavalgava até Santa Cruz para buscar os artigos necessários ao abastecimento do comércio e da pequena comunidade que se formava ao redor.
Junto à casa, Peter mandou construir um salão onde eram realizados bailes e festas de casamento. A propriedade dos Barth tornou-se, assim, não apenas um lugar de trabalho e sustento, mas também um ponto de encontro da vida comunitária de Rio Pardinho.
Karl Barth — chamado Carlos em algumas fontes escritas em português — casou-se com Johanna Zechardt. Ela havia nascido em 1857, em Solingen, na antiga Prússia, e chegara ainda pequena ao Brasil com seus pais, Wilhelm Zechardt e Juliana Dringer Zechardt.
Johanna tinha uma formação musical pouco comum para a época. Tocava piano, cantava e também tocava órgão na Capela São José, em Porto Alegre. Léa registra ainda uma história transmitida na família: quando D. Pedro II visitou Porto Alegre, Johanna teria sido escolhida, junto com colegas, para cantar e entregar-lhe um ramo de flores.
Karl e Johanna formaram uma família numerosa. Tiveram sete filhos: Emma, Adolfo, Ernesto, Ottilia, Carlos, Adelina e João. Uma antiga fotografia familiar, cuja data Léa estimou como sendo provavelmente 1903, reúne o casal, seus filhos e alguns dos primeiros netos. No verso, ela cuidadosamente identificou os personagens, preservando nomes que, de outro modo, poderiam ter se perdido com o tempo.
Carlos Barth Junior nasceu em Rio Pardinho no dia 28 de fevereiro de 1887. Cresceu nesse ambiente rural e comunitário, marcado pela língua alemã, pelo trabalho dos pais e pela importância atribuída à educação.
Léa conta que Carlos teve acesso a uma boa escola e se destacou como aluno. Sua caligrafia era especialmente bonita. Quando os inspetores de ensino visitavam a escola, seus cadernos eram mostrados como exemplo do trabalho dos melhores estudantes.
“Na família falava-se muito em alemão e foi assim que ele dominava tanto o português como o alemão.”
— Léa Barth Gerbase
Além dos estudos, Carlos ajudava nas atividades da família. Gostava de cavalgar e participava das corridas realizadas em cancha reta durante as festas e os encontros locais. A relação com os cavalos, iniciada ainda na juventude em Rio Pardinho, permaneceria por toda a sua vida e reapareceria, muitos anos depois, em sua conhecida paixão pelo turfe.
Aos dezoito anos, Carlos decidiu partir para Porto Alegre, onde já viviam sua irmã Emma e seu irmão Adolfo. Com a ajuda de Adolfo, conseguiu emprego em uma empresa atacadista de tecidos. Começava ali a transição entre o jovem criado em Rio Pardinho e o comerciante que construiria sua vida na capital.
As memórias de Léa descrevem esse início como uma experiência difícil. Carlos viajava pelo interior como caixeiro-viajante, levando consigo pesadas malas carregadas de tecidos e mercadorias. Passava longos períodos fora e retornava a Porto Alegre entre uma viagem e outra. A disciplina, a resistência e o conhecimento adquirido nesse trabalho formariam a base da trajetória que mais tarde levaria à criação da Loja A Brasileira.
Em 1943, Alfredo Ludwig publicou um perfil de Carlos Barth Junior no terceiro volume de Uma viagem pelo Rio Grande do Sul. O texto, escrito quando A Brasileira completava 28 anos, dedica também algumas linhas a seu pai.
Ludwig descreve o velho Barth já em idade avançada, vivendo em Santa Cruz, realizando seus passeios diários, visitando conhecidos e conservando uma reconhecida veia humorística. Segundo o autor, era estimado por toda a comunidade.
O perfil conta também que uma comissão de Rio Pardinho foi buscá-lo para as comemorações dos sessenta anos do Clube de Atiradores, do qual seria o único sócio-fundador ainda vivo.
Ao falar sobre a numerosa família, Ludwig registra uma frase atribuída a Carlos Barth, o pai:
“A melhor herança que se pode dar aos filhos é uma boa educação.”
O autor acrescenta de forma simples: “E assim procedeu.” Os filhos teriam sido encaminhados para bons colégios, confirmando uma preocupação que também aparece nas memórias escritas por Léa.
A educação, portanto, não surge apenas como uma declaração. Ela atravessa a história dos Barth: na formação musical de Johanna, nos estudos dos filhos, nos cadernos cuidadosamente escritos por Carlos Junior e, mais tarde, na educação dada às gerações seguintes.
A língua alemã também permaneceu viva durante muito tempo. Carlos e sua esposa, Elvira, conversavam entre si em alemão, embora evitassem fazê-lo diante do genro José Gerbase, que não compreendia o idioma.
Maria, neta de Carlos e Elvira, conservou uma lembrança especialmente afetuosa desse cuidado:
“Meu avô, quando falava com a minha vó, que chamava de Mama, falava somente em alemão. Mas eles nunca falavam alemão na frente do meu pai, por respeito, porque meu pai não sabia falar alemão. Isso eu achava muito legal.”
— Maria Gerbase
Maria conta também que Léa e Elvira recorriam algumas vezes ao alemão para conversar sobre assuntos que as crianças não deveriam escutar. Ela, porém, aprendeu a compreender quase tudo e guardou esse conhecimento em segredo, para que as duas não passassem a controlar melhor suas conversas.
Entre a Alemanha e o Brasil, a família foi mudando de língua, de profissão e de lugar. Peter construiu sua vida entre a lavoura, o armazém e o salão comunitário. Karl e Johanna formaram uma família numerosa em Rio Pardinho. Carlos Junior deixou o interior e seguiu para Porto Alegre, onde transformaria a experiência adquirida no comércio em um negócio próprio.
Ao longo dessas gerações, alguns valores parecem ter permanecido: a importância do trabalho, o cuidado com a educação, a disciplina, a ligação familiar e a capacidade de construir uma vida nova sem perder completamente a memória das origens.
Fontes
Léa Barth Gerbase. Memórias manuscritas da família, escritas em 2014.
Alfredo Ludwig.Uma viagem pelo Rio Grande do Sul, volume 3, páginas 173–175. Porto Alegre: Tipografia do Centro S.A., 1943. Texto localizado por meio da transcrição de Zelce Mosquer, publicada no blog Genealogias Sul-Brasileiras.
Maria Gerbase. Depoimento sobre Carlos Barth, transcrito pela família.
Karl Franz Barth - pai de Carlos Barth Júnior
Fotografia com os filhos de casal e alguns netos.
Da foto constam, da esquerda para a direita:
- Ottilia Barth, seu marido Heinrich Freyse e uma filha, possivelmente Martha Freyse;
- João Gustavo Barth (em pé), o caçula da família;
- Emma Bart, na época já viúva, o que indica que a foto é de depois de julho de 1907;
- Adelina Barth;
- Carlos Barth Jr.;
no centro, sentados, o casal Karl Barth e Johanna Iserhard;
- na frente, os netos: o menino mais à direita é Willy Barth - a menina ao centro pode ser Edith Freyse;
- atrás dos pais, os filhos, Ernesto Barth e esposa Malvina Sherer, bem como Adolfo Barth e esposa Blondina Schilling.
A família
Verso da foto da família
Identificação da família por Lea Barth Gerbase
Karl Franz Barth - Pai de Carlos Barth Junior
Karl Franz Barth
Wilhelm, em pé, irmão de Karl
Os irmão Adelina e Carlos
Primeira página do relato sobre a família por Lea Barth Gerbase
Casa - Salão de baile de Karl Barth - Rio Pardinho
Casa de Adelina Barth circa 1920
Casa de Adelina Barth circa 1920
Casa de Adelina Barth 2021
Casa de Adelina Barth 2021
A praia no arroio de Rio Pardinho