A Brasileira
A história de A Brasileira começou muito antes de a loja receber esse nome. Começou com a formação de Carlos Barth Junior no comércio, ainda jovem, primeiro no interior e depois em Porto Alegre.
Depois de concluir os estudos em Rio Pardinho, Carlos iniciou sua vida profissional em uma casa comercial. O começo foi modesto: segundo um perfil publicado por Alfredo Ludwig em 1943, nos primeiros meses trabalhou apenas em troca de alojamento e alimentação. Mais tarde, aos dezoito anos, mudou-se para Porto Alegre e ingressou na firma H. D. Maier, descrita pelo autor como um dos maiores estabelecimentos de tecidos da cidade naquele período. (gen.heuser.pro.br)
Ali permaneceu durante sete anos. Sua dedicação e sua capacidade para o comércio fizeram com que conquistasse responsabilidades cada vez maiores, até tornar-se caixeiro-viajante. Viajava pelo interior apresentando tecidos e mercadorias, criando relações com clientes e conhecendo na prática o funcionamento do mercado.
As memórias de Léa Barth Gerbase acrescentam uma dimensão muito concreta a esse período. Carlos percorria longas distâncias carregando malas pesadas, cheias de amostras e artigos para venda. O trabalho exigia resistência, disciplina e capacidade de adaptação — características que continuariam presentes em toda a sua vida profissional.
Aos 25 anos, já casado com Elvira, Carlos realizou o projeto de trabalhar por conta própria. Com suas economias e algum crédito, em 1912, comprou um pequeno armazém na Avenida Eduardo. O negócio prosperou e, em aproximadamente um ano, ele conseguiu pagar as dívidas assumidas. Depois vendeu o armazém e voltou sua atenção para o ramo que conhecia melhor: os tecidos.
Em 1915, abriu uma pequena loja de fazendas na Rua São Pedro, esquina com a Rua Minas Gerais. Deu ao estabelecimento o nome de A Brasileira. No ano seguinte, transferiu a loja para um ponto maior na Avenida Eduardo 52. (gen.heuser.pro.br)
O crescimento não parece ter ocorrido por acaso. Carlos conhecia profundamente o comércio, acompanhava de perto o funcionamento da loja e tinha especial interesse pela propaganda. Elaborava anúncios e cartazes, pensava nas promoções e na maneira de apresentar os produtos ao público.
Maria, sua neta, lembrava-se de que ele próprio se encarregava das chamadas comerciais:
“Ele se encarregava de fazer todos aqueles cartazes das promoções da loja, do que tinha chegado, dos preços baixos, de que ninguém encontraria um lugar mais barato do que A Brasileira, que era ‘barateira’.”
— Maria Gerbase
A capacidade de Carlos para criar anúncios teria sido reconhecida até por profissionais da propaganda de Porto Alegre. A lembrança permanece na família, embora a reportagem ou premiação mencionada por Maria ainda não tenha sido localizada.
Em 1923, Carlos viajou à Europa com o propósito de conhecer regiões manufatureiras e observar novas formas de organização comercial e de publicidade. Segundo Ludwig, ao retornar introduziu mudanças na empresa e, mais tarde, transferiu A Brasileira para a Rua Uruguai 318, no centro de Porto Alegre. (gen.heuser.pro.br)
Foi exatamente neste momento de expansão que ocorreu um belo gesto de união familiar: quando CBJ deixou as instalações da Avenida Eduardo, ele cedeu o antigo e próspero ponto comercial ao seu primo, Heinz Barth.
Heinz abriu ali a sua própria loja de tecidos, batizando-a com o nome A Preferida. A escolha não foi por acaso, pois A Preferida era justamente um dos nomes que constavam na famosa lista inicial que Carlos havia elaborado e submetido à "votação" de seus primeiros fregueses lá em 1915, antes de se decidir por consagrar o nome A Brasileira. Quem resgata com precisão essa maravilhosa história é Arnaldo Mentz Barth, filho de Harry e neto de CBJ, mostrando como o legado comercial do seu avô frutificou e ajudou a impulsionar outros membros da família.
Na Rua Uruguai a loja tornou-se um estabelecimento de grande movimento. O perfil de 1943 foi publicado quando A Brasileira completava 28 anos e a apresentava como uma antiga “lojinha de arrabalde” que havia crescido até se tornar uma das maiores casas comerciais do centro.
Ludwig descreveu o estabelecimento funcionando como uma colmeia, com entrada e saída contínuas de clientes e grandes quantidades de tecidos e artigos prontos empilhados até o teto. A linguagem é publicitária e entusiasmada, mas transmite bem a imagem que a empresa procurava projetar naquele momento: variedade, preços acessíveis e intensa circulação de público. (gen.heuser.pro.br)
A fotografia publicada junto ao artigo mostra a fachada da loja com a inscrição:
“Casa Nova — Novo Sortimento”
Nas laterais aparecem referências a artigos masculinos e femininos. A imagem sugere uma empresa que fazia de cada mudança e de cada renovação de estoque uma oportunidade de comunicação com os clientes.
Com o passar dos anos, os filhos Egon e Harry ingressaram na empresa e tornaram-se sócios do pai. Egon assumiu a chefia do escritório, enquanto Harry ficou responsável pelas vendas. Em 1943, já trabalhavam havia cerca de dois anos ao lado de Carlos. (gen.heuser.pro.br)
Apesar do crescimento, Carlos continuava pessoalmente envolvido na rotina. Saía cedo de casa e era normalmente o primeiro a chegar. Abria a porta, entrava e tornava a fechá-la, porque ainda não havia chegado o horário de atendimento. Mais tarde, descia novamente para abrir oficialmente a loja ao público.
No mezanino ficava sua mesa, mantida em ordem impecável. Maria e seus irmãos gostavam de visitá-lo ali. Recordavam os lápis pretos perfeitamente apontados, o lápis de duas pontas — uma vermelha e outra azul — e a pequena máquina de apontar.
“Meu avô parava o que estava fazendo, recebia muito bem os netos e apontava todos os lápis.”
— Maria Gerbase
No bolso do colete, Carlos guardava uma pequena tesoura. Quando os netos pediam para usá-la, ele perguntava:
— A tesoura chama-se?
E as crianças precisavam responder:
— Vai e volta.
Era uma maneira bem-humorada de lembrar que o objeto deveria ser devolvido ao lugar certo.
Essas lembranças mostram que A Brasileira não era apenas o grande empreendimento comercial de Carlos. Era também um dos cenários da vida familiar. Os netos circulavam pelo mezanino, conversavam com as funcionárias, observavam o movimento e encontravam o avô em seu ambiente mais característico: cercado por tecidos, papéis, lápis, cartazes e uma ordem cuidadosamente mantida.
A história da loja reúne muitos dos traços de Carlos Barth: a disposição para o trabalho, a capacidade de organização, a atenção aos detalhes, o interesse pela propaganda e a persistência para transformar um pequeno estabelecimento de bairro em uma importante casa comercial de Porto Alegre.
Resumo dos endereços da A Brasileira
A cronologia dos endereços da loja foi a seguinte:
1912: Iniciou um armazém de nome desconhecido no quarto distrito, perto da Av. Eduardo.
1915: A loja foi fundada na Rua São Pedro, esquina com a Rua Minas Gerais.
1916: Mudou-se para Avenida Eduardo nº 52 (que mais tarde se chamaria Av. Roosevelt) em frente ao Cine Thalia e próxima ao Clube dos Gondoleiros. O Ponto foi cedido para seu primo Heinz Barth, onde começou a funcionar a loja A Preferida
1923 / Pós-1923: Mudou-se para a Rua Uruguai, nº 318.
Fontes
Alfredo Ludwig.Uma viagem pelo Rio Grande do Sul, vol. 3, p. 173–175. Porto Alegre: Tipografia do Centro S.A., 1943. Transcrição de Zelce Mosquer publicada no blog Genealogias Sul-Brasileiras.
Léa Barth Gerbase. Memórias manuscritas da família, escritas em 2014.
Maria Gerbase. Depoimento sobre Carlos Barth, transcrito e revisado pela família.
Arnaldo Mentz Barth. Depoimentos sobre Cine Thalia, Gondoleiros e outros.
Histórias
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O Reclame de Aniversário (1943)
O artigo histórico de Alfredo Ludwig transcreveu as exatas palavras de um reclame para celebrar o 28º aniversário da loja. Veja a lábia comercial:
"A Brasileira, o grande baratilho de fazendas, a casa mais querida e popular de Pôrto Alegre, vai, em abril, festejar o seu 28º aniversário, brindando a sua grande de numerosa freguesia, que é, hoje, quasi a totalidade da população da cidade e seus arredores, com preços que vão ser muito falados e comentados em tôdas as rodas. E, realmente, bem o merecem, pois podem provar possuirem na capital milhares e milhares de sinceros freguêses que nestes longos 28 anos, nas bôas e nas más épocas, numca abandonaram a casa onde sempre foram bem atendidos servidos com tôda seriedade."
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A Brasileira debaxo d'água
Texto de Carlos Gerbase
Meu avô materno, Carlos Barth Jr., era proprietário de uma loja de tecidos chamada A Brasileira. Sua primeira sede, no início do século 20, ficava no Quarto Distrito de Porto Alegre. Nos anos 1920, mudou-se para a rua Uruguai, entre a José Montaury e a rua da Praia. Depois de sobreviver à grande crise de 29, o negócio prosperou. Em 1941, as águas do Guaíba invadiram a loja, e o prejuízo decerto foi grande. Há fotos que registram este fato. Tentei descobrir sua autoria, mas não foi possível (pelo menos até agora). Talvez sejam do grande Sioma Breitman, que registrou vários momentos da enchente com extraordinário apuro técnico e faro jornalístico. Contudo, as imagens podem ser de outro fotógrafo da época. O que mais nos interessa agora é que, em maio de 1941, o Guaíba chegou na frente d’A Brasileira. Depois de uma limpeza geral, a loja foi adiante.
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O "Capital" das Panelas e a Alma de Comerciante
A genialidade comercial de Carlos Barth Júnior e o seu faro instintivo para os negócios renderam uma das histórias mais divertidas da memória familiar. O episódio ilustra perfeitamente como, para ele, qualquer boa oportunidade era o alicerce para construir o seu "sonho dourado".
Tudo aconteceu na época em que Carlos e Elvira ainda eram noivos. Certa vez, participando de uma festa, a jovem Elvira teve a grande sorte de ganhar em uma rifa um conjunto de panelas muito bonitas. Sempre prestativo, Carlos prontificou-se imediatamente a levá-las para guardar em sua casa.
O tempo passou, o dia 25 de novembro de 1911 chegou, os dois se casaram e foram morar juntos. Já estabelecidos na nova rotina, Dona Elvira lembrou-se do seu prêmio da rifa e perguntou ao marido onde afinal estavam as suas belas panelas.
Foi então que veio a grande surpresa: com a maior naturalidade do mundo, Carlos confessou que as havia vendido em sua loja!. Ele justificou a atitude com a visão de quem enxergava longe, explicando à esposa que a venda tinha rendido um "bom dinheiro" e que aquele valor já fazia parte do capital da futura loja A Brasileira. Como definiu sua filha Léa muitos anos depois: era "coisa de comerciante nato!".
Longe de causar um problema conjugal, o destino das panelas rifadas transformou-se em uma lenda afetiva do casal. Sempre que Carlos e Elvira sentavam para contar essa história aos filhos, a lembrança era motivo de muitas risadas em família.
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Esta é Brasileira !
A escolha do nome A Brasileira – votado pelos próprios fregueses lá no início de 1915 – foi a salvação algumas décadas depois, em um dos momentos mais tensos da sua história.
Em agosto de 1942, o Brasil havia acabado de entrar na Segunda Guerra Mundial, após submarinos do Eixo torpedearem navios mercantes brasileiros. Com a declaração de guerra de Getúlio Vargas à Alemanha Nazista e à Itália Fascista, violentas manifestações populares explodiram em Porto Alegre.
Contam as crônicas da família que a turba enfurecida caminhava pelas ruas do centro histórico, apontando e atacando estabelecimentos cujos donos fossem descendentes de imigrantes alemães, sob a acusação de que poderiam formar a famosa "quinta coluna" (espiões infiltrados). O clima era de terror.
Quando a multidão chegou à Rua Uruguai, parou em frente à loja do Vô Carlos. Alguém na turba gritou, furioso: "Essa é de um alemão. Vamos quebrar tudo!". A invasão e a destruição da loja pareciam iminentes.
Foi então que a coragem da nova geração falou mais alto. Os filhos de Carlos, Harry e Egon, subiram rapidamente na marquise da loja. Lá de cima, de frente para a multidão, agitaram com força a bandeira nacional e gritaram a plenos pulmões: — "Olhem o nome da loja! É A BRASILEIRA!"
O detalhe, somado ao fervor da bandeira hasteada, fez o povo hesitar. O argumento era irrefutável. Nisso, um outro manifestante berrou do meio da rua: "Vamos adiante!". A turba então terminou de subir a Rua Uruguai e seguiu para vandalizar outras lojas na Rua da Praia. Por causa da rapidez de Harry e Egon — e do nome genial escolhido por Carlos Barth Júnior —, A Brasileira escapou ilesa para continuar sua história.
(Imagem meramente ilustrativa)
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A concordata
O sucesso d'A Brasileira na década de 1920 permitiu a Carlos Barth Júnior erguer o grande sonho de sua família. Retornando de uma viagem à Alemanha em 1923, ele conheceu no navio o arquiteto Adolf Siegert, a quem confiou o projeto de uma residência na Rua Santo Inácio. O projeto final resultou em uma casa espaçosa de três pisos, que causou um certo impacto na rua na época em que foi construída. Contudo, a vida lá dentro passava longe da ostentação; era um lar marcado por uma rotina simples e afetuosa, cujas maiores alegrias eram a música (com as constantes aulas de piano) e as reuniões descontraídas dos amigos de seus filhos.
A família habitou a sonhada casa até 1938, quando os duros reflexos da crise econômica da década de 1930 atingiram em cheio o comércio de Porto Alegre. A Brasileira enfrentou graves turbulências financeiras, obrigando o Vô Carlos a pedir concordata. Embora a recuperação da empresa estivesse sendo muito bem conduzida por ele e por seu administrador, Gildo Russowsky, a situação exigia sacrifícios para não prejudicar os credores e quitar um insistente empréstimo familiar.
Foi no auge dessa crise que o caráter impecável de Carlos se revelou por inteiro. Diante de uma boa proposta de compra da residência, ele não hesitou: vendeu a casa para salvar a firma e foi morar com a família em uma casa alugada. A atitude de extrema retidão causou profunda admiração entre o administrador da concordata, credores e amigos. O sentimento geral da época foi perfeitamente resumido pelo amigo da família, Dr. Luiz Machado: "O seu Barth é um homem de respeito, vendeu a casa para salvar a firma e foi morar em casa alugada".
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O Fim de um Ciclo e o Café "À Brasileira"
Mesmo após o falecimento do "Vô Carlos" em 1965, a loja A Brasileira seguiu como uma grande referência no comércio de Porto Alegre nas décadas seguintes. Sob a firme liderança de seus filhos e, posteriormente, de seus netos, a empresa continuou crescendo e, nos anos 1980, chegou a abrir filiais na subida da Rua da Praia e na Avenida José de Alencar.
Porém, o ciclo da clássica casa de variedades chegou ao seu fim. Uma combinação implacável de adversidades — um incêndio na filial da Rua da Praia somado a sucessivas crises econômicas e cambiais no país — levou ao fechamento definitivo da loja no início dos anos 1990.
Ainda assim, a essência do "sonho dourado" do caixeiro-viajante recusou-se a abandonar o centro da capital. Algum tempo depois, um dos prédios estreitos da Rua Uruguai, onde a loja funcionava, foi adquirido por um cidadão português que decidiu abrir ali um negócio. Em uma sutil e bela homenagem à tradição do local, batizou-o de Café À Brasileira. O estabelecimento, que já passou de pai para filha, continua no mesmo lugar, mantendo a crase, o nome, os ótimos pastéis de Belém e o café bem tirado.
Para a família Barth-Gerbase, o local guarda relíquias afetivas inestimáveis. O antigo cofre d'A Brasileira, pesado demais para ser movido por qualquer pessoa, continua lá dentro, firme como a memória do patriarca. Quando o neto Carlos Gerbase — que carrega o nome do avô — visita o café, confessa sentir-se "em casa", lembrando com saudade do Vô Carlos sentado lá no mezanino, de onde controlava com carisma todo o movimento da sua imensa clientela.
(Nota Histórica: Em maio de 2024, durante a trágica enchente que assolou Porto Alegre, as águas do Guaíba voltaram a invadir o histórico endereço da Rua Uruguai, um momento testemunhado com tristeza pelo neto Carlos. Resta a certeza de que, assim como o nome da loja sobreviveu a guerras e crises no passado, o histórico endereço reestabelecerá a sua força).