O Vô Carlos
Para os clientes e funcionários da Brasileira, Carlos Barth Junior era o fundador e dirigente da loja. Para os netos, era simplesmente o Vô Carlos: uma figura elegante, rigorosa, às vezes distante, mas cuja presença atravessava a vida cotidiana da família.
Quando Maria nasceu, em 1945, Léa e José Gerbase moravam com Carlos e Elvira. O casal havia ido viver com eles depois do casamento e permaneceu na mesma casa até 1961. Maria foi a primeira neta menina e, durante algum tempo, a criança da casa, cercada pelos pais, pelos avós, pelos tios Egon e Harry e pela tia Renata.
“Como primeira neta e criança da casa, eu fui superpaparicada.”
— Maria Gerbase
Carlos não era, porém, um avô de demonstrações expansivas. Não costumava pegar as crianças no colo nem distribuir abraços e carinhos. Sua afeição aparecia de outra maneira: nas providências que tomava, nos pequenos presentes, na atenção aos desejos dos netos e na certeza de que, quando ele decidia que algo deveria acontecer, acontecia.
Maria resumiu essa lembrança com especial clareza:
“O Vô Carlos não era uma pessoa obviamente carinhosa. Não era de colocar a gente no colo ou fazer carinho. Mas era uma pessoa que todas as crianças consideravam que gostava muito da gente e que faria tudo para a gente ser feliz.”
— Maria Gerbase
Um carinho feito de gestos
As crianças gostavam de visitar o avô na Brasileira. Subiam ao mezanino e se aproximavam de sua mesa impecavelmente organizada. Ali encontravam os lápis pretos perfeitamente apontados e um lápis especial, com uma ponta vermelha e outra azul.
Os netos levavam seus próprios lápis escolares e de colorir. Carlos interrompia o trabalho, recebia-os e apontava um por um na pequena máquina que mantinha sobre a mesa.
No bolso do colete, guardava uma tesoura de cortar papel. Como em casa as crianças nunca sabiam onde estava a tesoura da família, recorriam à do avô. Antes de emprestá-la, ele perguntava:
— A tesoura chama-se?
E elas precisavam responder:
— Vai e volta.
Era permitido levar, desde que o objeto retornasse ao seu lugar. Até numa brincadeira com os netos, Carlos encontrava uma maneira de ensinar responsabilidade.
O canivete do primeiro dia de aula
Luiz conserva outra lembrança desse modo particular de lidar com as crianças. Quando estava prestes a começar o primeiro ano escolar, o Vô Carlos prometeu-lhe um canivete que ficava cuidadosamente guardado no cofre da Brasileira.
O acordo era simples: ele ganharia o canivete se fosse direitinho para a escola, no primeiro dia do primeiro ano primário, sem reclamar. Luiz era conhecido por ter se negado a ir para o jardim de infância.
Luiz compareceu ao primeiro dia, cumpriu o combinado e recebeu o prêmio. Para ele, o contrato estava encerrado. No segundo dia, já com o canivete em mãos, não queria voltar à escola de maneira alguma.
A história mostra ao mesmo tempo a seriedade do avô ao cumprir sua promessa e a interpretação bastante particular que o neto fez das condições do negócio.
Fazer as coisas acontecerem
Carlos nem sempre participava dos programas infantis, mas cuidava para que eles acontecessem. Quando havia circo na cidade, os netos sabiam que, se José demonstrasse alguma preguiça em levá-los, o avô trataria de convencê-lo.
Maria gostava também de assistir à parada de Sete de Setembro. Bastava manifestar seu desejo para que Carlos pressionasse novamente o genro e garantisse o passeio.
“Meu avô podia não ir junto, mas realmente fazia com que meu pai nos levasse.”
— Maria Gerbase
Essa forma de agir parece definir boa parte de sua relação com os netos. Carlos não precisava necessariamente acompanhar cada programa. Seu papel era assegurar que a oportunidade não fosse perdida.
A maior dessas oportunidades foi uma viagem ao Rio de Janeiro, quando Maria tinha 14 anos e Jorge, 13. Carlos e Elvira costumavam passar o mês de julho hospedados no Hotel Olinda, diante do mar, e promoveram a ida dos dois netos para encontrá-los.
Carlos preparou uma relação dos lugares que deveriam conhecer. Todos os dias havia um programa: Ilha de Paquetá, Petrópolis, chá na Confeitaria Colombo e muitos outros passeios. O planejamento era rígido, como seria de esperar, mas a viagem permaneceu como uma das recordações mais queridas de Maria:
“Até hoje eu me lembro dos passeios. Eu conheci o Rio daquela época com o Vô Carlos.”
— Maria Gerbase
Presentes para filhos e netos
Nas memórias de Léa, essa maneira concreta de cuidar da família aparece antes mesmo do nascimento dos netos. Ao voltar de uma viagem à Europa, em 1923, Carlos trouxe malas e engradados cheios de objetos para a casa e de presentes para os familiares: aparelhos de porcelana, faqueiros, quadros, brinquedos e bonecas de louça para as filhas. Ele teve a sorte de estar lá na época da grande depressão, e comprou muito por muito pouco.
A principal aquisição teria sido um gramofone montada em um belo móvel, acompanhada de muitos discos, que permaneceu durante anos na vida da família.
O episódio revela um Carlos muito próximo daquele que Maria conheceria mais tarde. Não era um homem de grandes declarações sentimentais. Demonstrava sua atenção trazendo objetos, organizando experiências e oferecendo à família coisas que poderiam ser utilizadas, guardadas ou recordadas.
Aos domingos, depois de alguma vitória no turfe, os netos encontravam ao lado do prato uma nota nova de dois cruzeiros. Carlos retirava do banco notas que ainda não haviam circulado e mantinha um pequeno estoque para essas ocasiões.
Tudo o que dava parecia precisar estar impecável: os lápis apontados, os presentes organizados e as notas completamente novas.
O avô além da formalidade
Para as crianças, Carlos parecia estar sempre vestido da mesma maneira: ternos bem cortados, gravatas discretas e, algumas vezes, um brilhante na lapela. Era difícil imaginá-lo fora daquela aparência formal.
Mas havia também um lado divertido. As funcionárias da Brasileira o paparicavam, e ele se mostrava especialmente sensível à presença de mulheres bonitas. Quando alguma moça despertava sua atenção — até mesmo uma colega de Maria — fazia inconscientemente um pequeno movimento com as pernas, abaixando-se e erguendo-se como se quase desse um salto.
Os netos reconheciam imediatamente o sinal:
— Olha o Vô, está achando a mulher bonita!
Também ficou na memória o cuidado com que tratava José Gerbase. Carlos e Elvira conversavam normalmente em alemão, mas evitavam fazê-lo diante do genro, que não compreendia a língua. Maria via naquele gesto uma forma de respeito.
Esses pequenos episódios aproximam o homem formal e disciplinado daquele que a família conhecia: alguém com manias, humor, preferências e gestos involuntários que os netos observavam e comentavam entre si.
A lembrança que permaneceu
O Vô Carlos não era o centro das brincadeiras nem o avô dos abraços demorados. Era uma presença mais firme e discreta.
Seu carinho estava no lápis que parava o trabalho para apontar, no canivete guardado dentro do cofre, na nota nova ao lado do prato, na insistência para que as crianças fossem ao circo e na viagem cuidadosamente planejada para que os netos conhecessem o Rio de Janeiro.
Talvez justamente por não ser demonstrativo, seus gestos adquiriram um significado especial. Carlos fazia menos promessas afetivas do que providências. E foi por meio delas que os netos compreenderam que eram amados.
Fontes
Léa Barth Gerbase. Memórias manuscritas da família, escritas em 2014.
Maria Gerbase. Depoimento sobre Carlos Barth, transcrito e revisado pela família.
Luiz Gerbase. Lembrança pessoal sobre o canivete do primeiro dia de aula.