Um homem metódico
Entre as características mais marcantes de Carlos Barth Junior, talvez nenhuma tenha permanecido tão viva na memória da família quanto seu método. A organização, a pontualidade e o respeito às rotinas não eram apenas instrumentos de trabalho: faziam parte de sua maneira de viver e de compreender suas responsabilidades.
Maria, sua neta mais velha, recordava que ele acordava muito cedo, almoçava exatamente ao meio-dia e jantava às sete da noite. Depois do jantar, recolhia-se ao quarto, seguido por Elvira. Os horários tinham para ele uma importância quase absoluta.
“Eu também tenho essa característica de respeitar muito os horários. Acho que isto herdei dele, mas sem os exageros.”
— Maria Gerbase
A ressalva bem-humorada da neta ajuda a compor um retrato verdadeiro. O método de Carlos produzia ordem e eficiência, mas também exigia que os outros se adaptassem a ele. Raramente havia espaço para atrasos, indefinições ou mudanças de última hora.
Durante a semana, saía de casa por volta das sete da manhã. Da residência na Rua Hilário Ribeiro, seguia de bonde para o centro de Porto Alegre. Era normalmente o primeiro a chegar à Brasileira. Abria a porta, entrava e tornava a fechá-la, pois ainda era cedo para receber o público. Mais tarde, descia novamente para realizar a abertura oficial da loja.
Essa rotina revela mais do que pontualidade. Carlos não delegava a outros aquilo que considerava sua responsabilidade. O fundador chegava antes dos funcionários e acompanhava pessoalmente o início de mais um dia de trabalho.
A homenagem radiofônica realizada pela Rádio Itaí no 39º aniversário da Brasileira apresenta uma imagem pública muito semelhante àquela conservada pela família. O programa o descreve como um homem de “trabalho fecundo e honesto” e afirma que sua dedicação e sua compreensão da responsabilidade haviam orientado toda a trajetória profissional, desde os primeiros empregos até a direção de uma grande casa comercial.
O método também aparecia nos pequenos objetos. No mezanino da Brasileira, sua mesa era impecável. Havia um lápis com uma ponta vermelha e outra azul e vários lápis pretos, todos perfeitamente apontados. Para mantê-los assim, Carlos tinha uma pequena máquina de apontar.
Os netos frequentemente levavam até a loja seus lápis escolares e de colorir. Carlos interrompia o trabalho, recebia as crianças e apontava cada um deles. A ordem da mesa não impedia a aproximação dos netos; ao contrário, transformava-se numa pequena cerimônia compartilhada.
No bolso do colete, guardava uma tesoura simples de cortar papel. Como as crianças nunca encontravam as tesouras de casa, recorriam àquela que sabiam estar sempre no mesmo lugar.
Quando pediam o objeto emprestado, o avô perguntava:
— A tesoura chama-se?
E elas deveriam responder:
— Vai e volta.
A tesoura podia sair, mas precisava retornar. Era uma brincadeira e, ao mesmo tempo, uma pequena lição sobre responsabilidade e sobre a necessidade de cada coisa voltar ao seu lugar.
A capacidade de organizar não se limitava à casa ou à loja. Quando chegava o verão, Carlos coordenava a utilização das casas da família em Capão da Canoa e em Canela. Com quatro filhos já casados e suas respectivas famílias, era preciso distribuir os períodos para que todos pudessem aproveitar os dois lugares.
Ele preparava uma programação precisa. Cada família teria quinze dias na praia e quinze dias na serra, com datas e horários de chegada e partida. Maria lembrava que aquele planejamento era seguido tão rigorosamente que não era incomum duas famílias se cruzarem na estrada: uma terminando seu período e outra chegando para começar o seguinte.
“Isso era realmente uma lei. Todo mundo seguia tão bem que não era infrequente a gente se cruzar na estrada, uma família indo e a outra voltando.”
— Maria Gerbase
Os veraneios e as casas da família pertencem a uma história maior, formada por Carlos e Elvira, seus filhos e netos. Aqui, porém, o episódio revela principalmente a maneira de Carlos enfrentar qualquer situação: diante de muitas pessoas, dois destinos e um verão limitado, sua resposta natural era fazer uma programação.
O mesmo aconteceu numa viagem ao Rio de Janeiro promovida por ele para os netos Maria e Jorge. Carlos e Elvira costumavam passar o mês de julho na cidade, hospedados no Hotel Olinda, de frente para o mar. Quando os netos foram encontrá-los, Carlos preparou uma lista dos lugares que deveriam conhecer.
Havia um programa a cumprir a cada dia. Visitaram a Ilha de Paquetá, Petrópolis, a Confeitaria Colombo e outros pontos da cidade. O esquema era rígido o suficiente para provocar alguma tensão quando a tia Renata demorava para se arrumar ou quando era necessário retornar ao hotel para buscar seus óculos esquecidos.
Apesar disso — ou talvez também por causa disso —, a viagem permaneceu como uma recordação maravilhosa. Maria dizia que conheceu o Rio daquela época com o Vô Carlos. Sua lista garantiu que nenhum passeio importante fosse perdido.
Até sua maneira de vestir parecia obedecer a um padrão. Durante a semana e também nos fins de semana, Carlos usava ternos muito bem cortados, gravatas discretas e, frequentemente, um brilhante na lapela. Era difícil para os netos imaginá-lo vestido de outra maneira.
Nas temporadas em Canela, adotava aquilo que chamava de “roupas esporte”: uma calça mais larga e um casaco também mais folgado, aparentemente com pouca variedade. Para os passeios, levava invariavelmente uma bengala que chamava de “mata-cobra”. Em Capão da Canoa, protegia-se do sol com um calção semelhante a um samba-canção, a parte superior de um pijama listrado e um antigo chapéu Panamá.
Mesmo o lazer tinha suas roupas próprias, seus objetos e sua rotina.
A organização de Carlos não deve ser vista apenas como uma coleção de manias. Ela parece ter sido uma forma de responsabilidade. O mesmo homem que mantinha os lápis alinhados e exigia a devolução da tesoura foi capaz de atravessar anos como caixeiro-viajante, criar uma empresa, dirigir dezenas de funcionários e conservar sob seu comando uma loja de intenso movimento.
Na homenagem da Rádio Itaí, a história da Brasileira é apresentada como um exemplo de “dedicação, trabalho e ação”. A linguagem é solene, própria de uma homenagem comercial da época, mas coincide com aquilo que a família observava no cotidiano: Carlos acreditava no planejamento, no trabalho contínuo e na presença pessoal daquele que assumia uma responsabilidade.
Seu método podia impor regras, criar horários inflexíveis e exigir paciência dos que o acompanhavam. Mas também fazia as coisas acontecerem. As portas da loja eram abertas, os lápis estavam prontos, as famílias encontravam as casas organizadas e os netos conheciam todos os lugares previstos numa viagem.
Carlos Barth organizava o mundo ao seu redor. E, ao fazê-lo, deixou em gestos muito pequenos a mesma marca que imprimiu em suas realizações maiores.
Fontes
Maria Gerbase. Depoimento sobre Carlos Barth, transcrito e revisado pela família.
Rádio Itaí. Programa comemorativo do 39º aniversário da Loja A Brasileira, transcrição revisada pela família.
SEGUNDA VERSÃO: ====
Um Homem Metódico e de Hábitos Marcantes]
A genialidade comercial de Carlos Barth Júnior (CBJ) refletia-se também em sua vida pessoal. Quem convivia com o "Vô Carlos" logo percebia que o sucesso de A Brasileira não era obra do acaso, mas o resultado da mente de um homem extremamente metódico, disciplinado e cheio de peculiaridades que ficaram marcadas para sempre na memória da família.
O Relógio e a Rotina O seu dia era milimetricamente calculado. Acordava muito cedo, exigia que o almoço fosse servido pontualmente ao meio-dia e o jantar, religiosamente, às 19 horas. Após a refeição noturna, recolhia-se de imediato aos seus aposentos acompanhado de Dona Elvira. A sua pontualidade refletia-se também na loja: todas as manhãs, pegava o bonde na Rua Hilário Ribeiro para ser o primeiro a chegar na Rua Uruguai. Tinha a mania de abrir as portas, entrar, trancar-se novamente lá dentro e só depois de algum tempo abrir o estabelecimento definitivamente para o público.
A Mesa Impecável e a Tesoura "Vai e Volta" No mezanino de A Brasileira, a mesa de trabalho do Vô Carlos era impecável. Ele mantinha ali lápis de duas cores (uma ponta vermelha, outra azul) e lápis pretos com as pontas afiadas à perfeição em uma maquininha. Quando os netos apareciam com seus lápis de escola para apontar, ele parava o que estava fazendo, recebia-os com carinho e apontava um por um. No bolso do colete, guardava um de seus maiores tesouros domésticos: uma pequena tesoura de cortar papel. Como na casa da família as tesouras sempre sumiam, os netos iam até ele pedir a sua emprestada. Mas havia uma senha! Para ganhá-la, a criança tinha que responder corretamente como a tesoura se chamava: "Vai e Volta!".
Faro para a Propaganda (e para o Capital!) CBJ era um "comerciante nato". Esse faro para os negócios já aparecia na juventude quando a noiva, Dona Elvira, ganhou lindas panelas em uma rifa. Ele guardou as panelas, vendeu-as na loja e usou o "bom dinheiro" para integrar o capital da futura A Brasileira. Era também o grande marqueteiro da loja. No início, imprimia folhetos e passava as noites distribuindo-os por baixo das portas dos vizinhos. Décadas depois, continuava encarregado de redigir e desenhar todos os cartazes de promoções da loja, garantindo que ninguém vendia mais barato, um talento tão notável que chegou a ser reconhecido por agências de propaganda de Porto Alegre.
As Viagens de "Planilha" As férias em família também seguiam o seu método rigoroso. Com uma casa de veraneio em Capão da Canoa e outra em Canela para os quatro filhos já casados, ele organizava uma verdadeira planilha de revezamento no verão: cada família tinha exatos quinze dias na serra e quinze na praia, com horários de chegada e saída rigorosamente determinados por ele. Até o lazer era cronometrado. Em uma viagem inesquecível de férias ao Rio de Janeiro com os netos, ele montou uma lista estrita de passeios diários (Ilha de Paquetá, Petrópolis, Confeitaria Colombo), gerando um estresse divertido sempre que a tia Renata se atrasava para se arrumar e ameaçava a pontualidade do roteiro.
O Guarda-Roupa e a Elegância Na cidade, quer nos dias úteis, quer nos fins de semana, vestia-se de maneira impecável com ternos muito bem cortados, gravatas discretas e, frequentemente, um brilhante na lapela. Em Canela, usava as suas "roupas esporte": calças e casacos mais largos e uma bengala que ele apelidou de “mata-cobra”. Já na praia, o visual era icônico: um calção samba-canção, a parte de cima de um pijama listrado para proteger os ombros do sol, e um velho e inseparável chapéu Panamá.
As Manias de um Avô Adorável Mesmo sendo um homem contido e de poucas demonstrações físicas de afeto, os netos sabiam que ele faria de tudo pela felicidade deles. Nos domingos, quando ganhava nas suas apostas do Turfe (que ele jurava que sempre "equilibravam os custos"), presenteava os netos com notas de dois cruzeiros absolutamente novas e sem circulação, tiradas de um envelope do banco e deixadas ao lado do prato de cada um. Tinha um fraco confesso pela beleza feminina: quando uma moça bonita lhe chamava a atenção, fazia involuntariamente um gesto engraçado com as pernas, ajoelhando-se de leve, o que sempre provocava risadas na família. Em casa, quando queria tratar de assuntos que o genro (José Gerbase) ou as crianças não deviam escutar, conversava com Dona Elvira ou com as filhas exclusivamente em alemão — sem desconfiar que a pequena neta Maria entendia tudo o que eles diziam!
Aqui pode ter um texto explicativo da seção abaixo -
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Histórias
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19xx - A Viagem
Tudo começa ,,,,
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Lugar para contar historinhas rápidas
Esta seção pod ser usado como um tipo de blog, bem ligado a pessoa em questão. Só pode ter uma foto, e o texto não pode ser muito grande.