O cinema Thalia
Ilustração histórica criada a partir de fotografia de Carlos Barth jovem e de relatos familiares sobre as corridas de cancha reta em Rio Pardinho.
Cinema Talia e as notas da pianola
O espírito empreendedor de Carlos Barth Júnior não conhecia limites, e sua energia parecia transbordar do balcão d'A Brasileira para as ruas de Porto Alegre. Quando a loja se estabeleceu na tradicional Avenida Eduardo, nº 52, no ano de 1916, um detalhe na vizinhança marcou a memória da cidade e da família: a loja ficava exatamente em frente ao cinema da época.
Segundo os manuscritos de Dona Léa no Livro Família, este estabelecimento era o Cinema Thalia, e a relação do "Vô Carlos" com ele ia muito além de ser um mero vizinho. Revelando um talento musical e uma veia artística surpreendentes para um comerciante tão metódico, Carlos atravessava a rua nos fins de semana e sentava-se para tocar pianola durante a exibição dos filmes mudos. Em uma época em que o cinema dependia inteiramente da música ao vivo para transmitir emoção, tensão e alegria aos espectadores, era o próprio CBJ quem dava o tom, o ritmo e a vida às imagens projetadas na tela de lona.
Essa íntima ligação com o Cinema Talia levanta uma especulação histórica fascinante, agora reforçada pela memória oral da família trazida pelo seu neto Arnaldo Mentz Barth: Carlos Barth Júnior foi participou de alguma maneira na criação deste cinema, segundo relatos do seu pai Harry e tia Renata. Analisando o seu perfil, a hipótese faz todo o sentido. Homem de visão comercial ímpar, ele sabia que atrair o público para a Avenida Eduardo era fundamental para consolidar o comércio local. Investir no entretenimento da vizinhança, ajudando a fundar um cinema bem em frente ao seu "sonho dourado", seria uma estratégia genial e vanguardista para movimentar a rua, trazer as famílias para a região e, consequentemente, alavancar as vendas d'A Brasileira.
Quando unimos o seu instinto para os negócios à sua dedicação pessoal em atuar como o músico residente das sessões de fim de semana, a imagem de um CBJ não apenas comerciante, mas também pioneiro do entretenimento cinematográfico na capital, ganha contornos muito reais. Mesmo que não existam documentos oficiais que o citem formalmente como dono da sala de projeção, o fato de ele ser o "dono da música" e o comerciante mais próspero da rua o coloca, no mínimo, como a alma e o grande fiador daquele antigo espaço de lazer.