Os Gondoleiros

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A Esquina Dourada da Avenida Eduardo e as Coincidências de 1915]

O ano de 1915 marcou para sempre a vida de Carlos Barth Júnior e a geografia cultural do chamado 4º Distrito de Porto Alegre. Foi neste exato ano que dois grandes marcos da cidade ganharam vida na mesma vizinhança: a fundação da sua clássica loja A Brasileira e o surgimento da Associação dos Gondoleiros.

Quando a loja se transferiu em 1916 para o ponto maior na pujante Avenida Eduardo (cujo trecho seria posteriormente rebatizado como Av. Roosevelt), a numeração da época marcava o nº 52. Aquele quarteirão era um verdadeiro polo de efervescência social. Quase em frente à loja, no nº 29, situava-se o badalado Cine Thalia e, dominando a esquina vizinha, erguia-se o imponente prédio original do Clube dos Gondoleiros, adornado no topo com a sua icônica e reluzente escultura de uma gôndola dourada com três figuras.

A rotina de "Vô Carlos" orbitava por esse triângulo de prosperidade e lazer. Com sua inegável inteligência comercial e veia artística, ele sabia que o fluxo de pessoas na rua era o segredo do sucesso. Por isso, nos fins de semana, o comerciante metódico deixava o balcão d'A Brasileira e assumia a pianola do Cine Thalia. Em uma época de filmes mudos, era ele quem dava muitas vezes o tom e a emoção às exibições, o que reforça a memória oral repassada por seu filho Harry e sua filha Renata de que Carlos teria participado da criação ou sido um dos incentivadores do cinema. Afinal, fomentar o entretenimento na vizinhança do seu comércio era uma tática inteligente para atrair o público.

Mas o seu pioneirismo estendia-se também à esquina ao lado. O Clube dos Gondoleiros, criado por operários e imigrantes de origem alemã, italiana e portuguesa, dedicava-se inicialmente aos esportes náuticos no rio Guaíba. Vivendo no epicentro da fundação do clube e compartilhando o mesmo ano de inauguração do seu negócio, Carlos envolveu-se profundamente com a instituição. Décadas depois, em meados do século XX, quando os aterros da cidade afastaram o clube das águas do Guaíba e ameaçaram a sua existência, foi ele quem assumiu a presidência da associação.

Em uma manobra administrativa magistral, Carlos salvou o clube ao liderar a transição do remo para os esportes de quadra. Sob sua direção, o Gondoleiros adquiriu o terreno na Rua Santos Dumont, nº 1147, e construiu um pavilhão monumental, imortalizado com o nome de Ginásio Carlos Barth Júnior.

A importância desta obra, hoje quase esquecida pela cidade, foi recentemente resgatada pelo estudo histórico internacional "The Ginásio Carlos Barth Júnior and the Socio-Spatial Legacy of the Associação dos Gondoleiros in Porto Alegre". O artigo detalha que o líder Carlos Barth Júnior foi visionário ao perceber que a sobrevivência do clube dependia de instalações esportivas cobertas de última geração. O ginásio foi projetado com uma quadra de madeira especializada para absorver manobras de alto impacto, amplas galerias para os espectadores e vestiários integrados, tornando-se uma das melhores arenas do Rio Grande do Sul. Foi graças a essa infraestrutura de ponta idealizada por CBJ que o time de basquete do Gondoleiros dominou o Campeonato Citadino de Porto Alegre e o Campeonato Estadual nas décadas de 1950 e 1960, atraindo multidões apaixonadas que lotavam as arquibancadas para assistir aos históricos confrontos contra a Sogipa, o Grêmio e o Cruzeiro.

Hoje, essas peças do passado encontram novos significados. O antigo ginásio construído por CBJ teve sua fachada estrutural tombada como patrimônio histórico pelo COMPAHC. E, de forma poética, o majestoso prédio original vizinho d'A Brasileira, com a sua gôndola dourada resistindo bravamente ao tempo, foi revitalizado e hoje abriga um espaço de coworking contemporâneo. Ficam os prédios, transformam-se os usos, mas a esquina dourada do "Vô Carlos" segue sendo um polo de trabalho e inspiração.

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Cinema Thalia